PACATUBA ENRICOU!

terça-feira, 14 de julho de 2009 3 Comentaram

pacatuba

Nos idos de 1960 ali perto da praçinha por traz da Igreja Católica ao lado da casa de Dona Vanja e bem em frente à marcenaria de seu Neco, vivia uma das criaturas mais interessantes de Caiçara, seu Pacatuba. Um velho daqueles de estopim curto que ficava bravo com apelidos que a turma colocava e fazia chacota com ele. Naquele tempo ainda não havia esse sistema de aposentadoria para as pessoas que viviam exclusivamente da agricultura.

Seu Pacatuba morava em uma casa daquelas de taipa com uma porta e uma janela mais ou menos com uns cinco metros de frente por uns quinze de fundos sem luminosidade nenhuma e sem ventilação, pois as casas nessa rua são de paredes de meia, ou seja, uma parede serve para duas casas ao mesmo tempo, sem contar com a sujeira que se acumulava no meio dos gatos e cachorros que transitavam livremente lá por dentro. Ele era casado, mais no momento não lembro do nome de sua esposa. Só sei que vivia da roça e todo dia atravessava o rio que ficava por traz de sua casa (rio curimataú em tempos de chuvas já que o seu leito é seco na época da seca), para ir para o roçado que cultivava na base da enxada em terras de seu Tonheiro, fazendeiro de nossa cidade digo no Município Vizinho de Tacima porque o limite do município de Caiçara é o meio do leito do rio, e essa era sua rotina. Quando chegava a tarde se tivesse água no rio tomava lá mesmo o seu banho, se fosse em época de seca passava em uma cacimba de água salgada, diga-se de passagem, e se lavava (os pés e o rosto) para chegando em casa comer algumas batatas doce cozinhadas com café. Depois ficava sentado no batente de sua casa para esperar a luz do motor ser acesa e iluminar alguns pontos eleitos pelos poucos postes espalhados. A turma que estudava a noite no Grupo Escolar João Soares e no Ginásio Comercial de Caiçara, começava a passar pra ir pra escola e metia o grito em alto e bom som PACATUBA ENRICOU, PACATUBA ENRICOU, essa criatura de levantava transtornado e procurava logo algumas pedras e começava a arremessar na turma era uma batalha, de uma lado a garotada e rapaziada gritando PACATUBA ENRICOU e de outro seu Pacatuba comendo todo mundo na pedra. Teve um dia de Domingo a tarde que estava havendo jogo de vôlei na quadrinha que havia ali do lado da Igreja, onde hoje é a rodoviária, e ele estava por ali assistindo ao jogo quando alguém gritou a senha e aí começou o alvoroço porque sem que ninguém tivesse percebido ele estava de posse de uma pequena roçadeira daquelas de cabo pequeno e estava dentro da camisa aí começou a correr atrás da turma e dava golpes para valer mesmo foi quando alguém se achegou, sem que ele notasse, e conseguiu tirar o seu chapéu da cabeça colocando-o na cabeça da estátua de Getúlio Vargas que ficava na praçinha então ele não se fez de rogado mandou essa roçadeira naquela estátua e gritava “me dê meu chapéu nego safado me dê meu chapéu”, essa foi uma cena hilária que pude presenciar e que não esqueço. Mas afinal de onde viria esse apelido que tanto tirava seu Pacatuba do sério?

Depois de muito tempo aquilo me intrigou fui indagando as pessoas então fiquei sabendo da origem que foi mais ou menos assim: Quando o rio estava com água em seu leito era costume das pessoas irem tomar banho em um poço lá perto da casa de seu Zé Lucas, que naquele tempo morava na sede da fazenda de seu Tonheiro, e esse local se chama de Pedra da Cajarana, hoje cantada e enaltecida pelo poeta, compositor, cantor e nas horas vagas Secretário de Educação do Município o nosso Zé Carlos. Um certo dia por ironia do destino estava tomando banho, no final da tarde, uma turma da pesada chefiada, segundo me falaram, por Jaime de Manoel Anízio, Marcos de João Queiroz, Privida e Outros quando notaram que seu Pacatuba vinha ao longe no sentido de onde eles estavam e até aquele momento ainda não tinha visto a turma tomando banho, então eles, mas que depressa pegaram sua roupas e tudo o mais que pudesse os denunciar se esconderam por traz da pedra da cajarana. Seu Pacatuba chegou tranqüilo tirou a roupa foi se dirigindo para o poço e antes de entrar molhou os dedos para fazer o sinal da cruz , quando ele colocou a mão sobre a testa para iniciar o sinal alguém deu um gemido daqueles de alma penada UUUUUUIIIIIII,UUUUUIIIII, o velho parou imediatamente os movimentos ficou extasiado prestando atenção, nesse momento a turma ficou quieta, aí ele olhou para os lados e não viu nada então fez aquele gesto como se fosse apenas uma ruído qualquer entrando na água então alguém chamou o seu nome PACATUUUUUUUUUUBA OU PACATUUUUUUUUBA, aí o velho deu um pulo pra fora do poço e falou pra si mesmo isso é uma aima e eu vou requerer ela, e a voz outra vez PACATUUUUUUUBA OU PACATUUUUUUBA ele falou de novo eu vou requerer essa aima então requereu quem ta aí é uma aima de paz se for de paz diga o que tu quer? Aí alguém teve a brilhante idéia de continuar o papo do além e perguntou: PACATUUUUUUUBA OU PACATUUUUUUUUBA você quer enricar? Aí seu Pacatuba respondeu: quero aima santa quero aiminha de Deus eu quero então a voz respondeu, pois vá da o … , ele pulou pra traz tentando olhar prá traz da pedra e logo respondeu: vá você aima fresca vá você. Agora está explicado o porquê de tanta ira quando se falava nesse assunto.

Resgate do popular Caiçarense.

Valberto Costa da Silva

Bel em Comunicação e Direito Adm. Municipal

3 Respostas para “PACATUBA ENRICOU!”

  1. Julianna de Betinho disse:

    Super engracada a historia! Pra nos… herdeiros dos filhos de Caicara que nao tivemos a oportunidade de conhece-la nessa epoca em que tantas historias interessantes se passavam, registra-las aqui eh uma forma de eterniza-las!!!
    Parabens pela coluna pai! Serei sua leitora assidua!
    Beijos a todos!

  2. Williams (Maninho) disse:

    Alem desta existem inumeras histórias (contos), que marcaram a história de nossa Caiçara.

    Quem nao se lembra do grupo de amigos que se reuniam todas as tardes na porta da residencia do Sr. Rafael; Sao eles: Tonheiro, Zezito, Seu Madruga, Severino Crente, Sr Joao Alves (avo do Hugo), Sr. Zé Lopes, Sr. Joao Queiroz, etc. quantos assuntos eram debatidos no meio deles. quem pode imaginar a soma da idade de todos. uns 1100 anos, só o Severino Crente tinha 90.

    Respeitosamente,

    Williams (Maninho)
    RJ, 04NOV2009.

  3. Florencio disse:

    Será que alguém lembra da história da noiva do mês de maio que desfilava nas madrugadas saindo do antigo cemitério? ou da mulher que fazia mesuras para as pessoas que passavam no Riacho da Picada, caminho de Logradouro, nas madrugadas de lua cheia?

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