Privida Parte 1

Severino do Ramo não sei do que, era assim que se chamava o jovem ativo e meio desengonçado que não tinha lugar certo de morar, de comer ou dormir. Vivia pelo meio da rua com roupas rasgadas, em sua maioria de segunda mão, doadas por alguém com maior estatura ou mais gordo. Me lembro que este garoto era filho de seu Zé Preto, que na verdade não sei bem onde morava. Acho que lá no fala baixinho. Zé Preto era irmão de seu Zé Francisco da padaria, que era pai do nosso querido amigo Silva. Voltando ao Severino do Ramo: um belo dia, lá na frente da Igreja onde seu Zé Carneiro sempre encostava o seu caminhão para fazer alguma manutenção e os meninos ficavam brincando por ali subindo e descendo da carroceria, Severino do Ramo era um daqueles que mais enchia o saco tentando ajudar. Então veio o apelido PRIVIDA (Presília é uma peça pequena que serve para prender ou travar outras peças) e por PRIVIDA ficou.
Esse moleque precisava se virar para sobreviver: fazia recados, vendia salgados pelas ruas e outras peripécias. Mas o que ele gostava mesmo era de cinema e jogar futebol. Saia pelas ruas carregando nas costas uma armação de madeira onde eram pregados os cartazes dos filmes que iriam ser exibidos. O pagamento por isso era apenas a entrada para assisti-lo. Gostava muito de todo tipo de filme, mas se extasiava mesmo era com os filmes de cowboys. Naquela época, eram os atores como Giulliano Gemma, Antonio Steaf, John Waine e outros. Como não sabia ler nem escrever, ele decorava as cenas dos filmes e já previa os acontecimentos. No dia seguinte, juntava a molecada e ia brincar de bang-bang nas barrancas do rio curimataú e por traz dos quintais das casas da rua grande. Era moleque solto. Juro que às vezes sentia inveja dele pela liberdade que tinha. Devia ser uns dez anos mais velho que eu. Como não tinha parada certa, as vezes passava lá em casa, próximo da hora do almoço. Aí aproveitava e fazia uma boquinha. Naquela época meu pai era fiel depositário do único cinema que tinha em Caiçara, o CINE SÃO JOÃO, que funcionava em um prédio situado na Avenida Rio Branco, ali vizinho a casa de seu Pedro Alves. Esse cinema foi fundado pelo grupo ANDERSON CLEITON que era dono da usina de beneficiamento de sisal, que depois virou massa falida e os bens ficaram retidos na justiça. Então papai, que era apaixonado por cinema, conseguiu ficar como fiel depositário, pagando o aluguel na justiça.
O distribuidor dos filmes era sediado em Belém. A estrada era péssima. Só havia o Caminhão misto de seu Zé Erminegídio (seu Zé Caça Morta), que fazia a linha. Nas segundas-feiras ia para Belém e nas quartas e sábados ia para Guarabira nos dias de feira. Na época das chuvas não havia condições de trafego, então o PRIVIDA ia a pé para Belém e voltava com aquela caixa de aço, que pesava mais ou menos uns trinta quilos, nas costas trazendo os três carretéis de aço com a fita magnética que ia encher de prazer a garotada. Seu pagamento eram a entrada do cinema e uns pratos de comida.
Quando o rio enchia era um verdadeiro carnaval em suas margens. A turma ia tomar banho e desfrutar um pouco das brincadeiras. Entre os garotos, sempre estava o Privida e sempre era o que mais se sobressaía. Então, a galera fazia apostas para pular na água de várias maneiras. Um dia fizeram uma aposta pra ver se ele conseguia sair da água com as mãos amarradas. Pegaram ele e amarraram seus pés e mãos com correias de salsa (uma planta que nasce nas margens do rio cujos ramos parecem com os da batata doce) o empurraram no rio que estava muito cheio. Quase que ele morre afogado! Mas eu disse quase!
O garoto foi crescendo e cada vez mais ficando desordeiro. As vezes fazia pequenos furtos e se dava bem. Mas noutras era pego e fazia um escarcel danado, sempre se safando das garras da lei. Um dia, o pegaram e levaram para o PINDOBAL (acho que era esse o nome), uma instituição que abrigava menores infratores e ficava lá pros lados de Rio Tinto. Todos os meninos da região morriam de medo daquele lugar. Mas nem o PINDOBAL o conteve. Ele acabou fugindo e apareceu em Caiçara logo depois de uma semana que tinha sido internado e até hoje não se sabe como fugiu, nem como veio de lá. De outra feita, estava brigando lá no bilhar de Sabueiro e foi abordado por um policial que lhe deu voz de prisão. Mas um só não levava ele preso e o meganha já sabia, por isso sacou o revólver e o ameaçou dando-lhe ordem para caminhar à sua frente. Foi aquele alvoroço danado na Rua Grande (Rua João Pessoa): o povo saia nas janelas pra ver, pela primeira vez, Privida sendo preso e ainda conduzido por apenas um homem. Mas ele só ia porque estava na frente de um trinta e oito carregado de balas.
Então, lá se ia o cortejo na frente Privida e, logo atrás o soldado (ou era sargento) com o revólver na mão bem colado ao corpo do meliante. Ha alguns metros atrás, alguns curiosos que queriam ver de perto o desfecho daquele bang-bang caiçarense. Passaram na frente da casa de seu Cazuza, na frente da casa de Dona Catarina e foi subindo. Quando passou em frente a casa de seu Madruga, o Privida deu uma parada e olhou para traz, mas o soldado deu uma cutucada em suas costas com o revólver. Então, ele deu um pulo e continuou a caminhada. Só que antes de pular para frente, ele notou que o dedo do homem não estava no gatilho (isso ele me contou muito tempo depois), nesse momento aquela rua parecia uma noite de Festa de Reis. O malandro calculou bem o tempo, a distância entre ambos e o local apropriado para a cartada final ou para tirar a carta da manga. Quando chegou ali, bem na frente ao bar de seu Gino, que ficava na esquina da pracinha onde hoje é a Escola Municipal João Alves, bem naquela rua que dava direto no fala baixinho e consequentemente no rio, começou a tentar dialogar com o policial e foi dizendo que não era bem assim que ele tava fazendo injustiça que a culpa era do outro que brigara com ele e por aí. Enquanto isso, foi observando a posição do agora seu inimigo. Foi conversando e isso foi tirando a atenção do seu algoz. De repente, deu um salto em cima do soldado batendo em sua mão e de um sopapo só, tirou o revólver da mão do policial. Ao mesmo tempo que o empunhou e engatilhou a arma, apertando o seu gatilho por três vezes. Para sorte do homem, que estava no chão estendido e indefeso, falharam todas as três tentativas. Depressa, ele jogou a arma no chão, praguejando porque ela falhara, correu pelo beco, no sentido do rio Curimataú, e sumiu para os lados do Município de Tacima. Ainda não havia sido dessa vez que tinham conseguido o enjaular.
Contos Reais do Popular Caiçarence
Por: Valberto Costa da Silva
Bacharel em Comunicação e Direito Administrativo.


Ao grande comentarista deste fato, parabens.
Eu posso confirmar o ocorrido, pois fui testemunha ocular do acontecido, estava a mais ou menos uns vinte metros da açao. Lembro-me ainda que o mesmo soldado que o conduzia estava a paisana e ficava esfregando a arma nas costa o Privida, e no momento em que o Priva tomou a arma e a mesma noa desparou, ele usava um tamanco de madeira e sentou o tamanco nos peito do soldado, fugindo em seguida.
Soube muito tempo depois que o priva dormiu na fazenda do Dr. Tarcisio e no dia seguinte partiu para Nova Cruz, RN, ficando por lá alguns dias.
Esse fato marcou muito em Caiçara, foi bom recordar.
Atenciosamente,
Williams (Maninho)
RJ, 04NOV2009.
Acrescento mais um detalhe que me veio a mente com relaçao ao relato supra citado. O nome do soldado que conduzia o Priva chama-se Anastácio.
Atenciosamente,
Williams (Maninho)
RJ, 09NOV2009.